” Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça – que se chama paixão.”
Clarice Lispector
do livro ‘A paixão segundo G.H.‘
SE VOCÊ SOUBESSE
Ah, meu amor
se você soubesse
como eu esperei
que a tua voz viesse
como num abraço
que estreita,
como uma saudade
que não tem hora,
e nos bate à porta.
Como uma folha
que aguarda o orvalho
que se condensa
na noite cálida,
suave e lento
como um destilado
das emoções.
Ah, se você soubesse
como eu esperei
que as horas
não me escapassem,
como a água que flui
pelas corredeiras,
amaciando pedras,
carregando partes,
límpida e tépida,
para destino certo.
Como a estátua
que aguarda o tempo,
exposta ao vento
e à carícia da brisa
morna,
que sopra do leste,
ponto cardeal dos meus medos
que me faz mirar longe,
eternamente,
na busca de teu eco.
Ah, meu amor
se você soubesse.
ESSÊNCIA
São tantas as coisas
em mim
que já não me cabem
e eu me transbordo
e venho molhar os teus pés.
FAZ-DE-CONTA
Que aroma surpreendente me trouxeste!
Um aroma que parece brotar
da terra lavada pela chuva
rápida
e tempestuosa.
Da chuva que molha os corpos e
faz deles exalar
o aroma do desejo.
Do desejo que faz
os corpos suarem
na busca do amor louco,
do cio que nos penetra
corpo adentro
nos transformando
em animais carentes.
Um aroma suave
e profundo
e persistente,
latejante.
Um aroma que brota da carne
macia,
que repousa no corpo amado,
peito a peito,
num abraço estreito.
Um aroma de fantasia,
que respiro no ar,
apesar da tua ausência,
e então eu rolo
e me enrolo
nos teus braços
como uma fantasia de criança.
Como uma criança
que faz-de-conta.
ESPERA
Esperar.
Devemos sempre.
O poeta senta-se na beira do mundo
e espera.
Sempre.
A palavra não,
essa não espera nada.
Muitas vezes vem
como uma avalanche
a nos atropelar
sem hora ou momento
e só sossega
quando escorre
pelo bico da pena
e marca a folha branca,
mancha a pureza
do papel virgem.
Traz a verdade à tona
como um barquinho de papel
a flutuar em águas claras.
NAQUELA CADEIRA
Com o peito vazado
de esperança
permaneci naquela cadeira
como se mais nada
tivesse a fazer,
como se mais nada
tivesse a esperar.
Assim,
permaneci naquela cadeira,
como quem olha para o nada,
feito cão vadio,
que na noite perdido,
não encontra abrigo
do açoite do vento.
Daquela mesma maneira,
permaneci naquela cadeira,
como se esperança
nunca mais existisse.
ESSES OLHOS
Por que me olhas assim
com esses olhos
que ferem fundo
que desejam
e inquietam.
Esses olhos
que aprisionam
tudo querem
e nada pedem.
Que envolvem
que interrogam
procurando uma resposta
incerta
silenciosa
que só os meus olhos
podem dar.
Esses olhos
que buscam
assim
sem pressa
com o ar maroto
de que tudo sabem
e que fogem
quando encaram os meus.
Muito bom, gostei do que li. Escrever é dar importância a si mesmo. Assim, continue em frente.
Parabéns!
Por: Thereza Christina em agosto 8, 2008
às 8:34 pm